Vorcaro tentou influenciar STF em causa bilionária de precatórios, revelam mensagens obtidas pela PF 

Compartilhe:

Montagem com dois retratos lado a lado de pessoas usando trajes formais. À esquerda, uma pessoa com óculos, gravata azul e veste escura, fotografada de frente contra um fundo interno desfocado em tons neutros. À direita, uma pessoa com barba, camisa branca e paletó escuro, fotografada em ângulo lateral próximo a uma janela com persianas horizontais. A imagem é dividida verticalmente ao centro, destacando cada retrato em ambientes internos distintos.

Documentos e mensagens trocadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do extinto Banco Master, indicam uma movimentação para tentar interferir em julgamentos do Supremo Tribunal Federal que envolviam bilhões de reais em precatórios do setor sucroalcooleiro. As informações constam em relatórios da Polícia Federal e em reportagens publicadas nos últimos dias, que juntas desenham um quadro preocupante sobre como grandes operadores do mercado de precatórios podem tentar mover as engrenagens da Justiça a seu favor. 

A reunião no gabinete de Gilmar Mendes

Segundo apurado pela Folha de S.Paulo e confirmado pelo próprio ministro Gilmar Mendes nesta sexta-feira (18/9), Vorcaro se reuniu pessoalmente com o decano do STF em abril de 2024. O encontro, realizado no gabinete do ministro, buscava apoio para uma tese jurídica que beneficiaria diretamente o Banco Master, que detinha bilhões de reais em créditos de empresas do setor sucroalcooleiro contra a União. 

A ponte para a reunião, segundo diálogos extraídos do celular do banqueiro, teria sido feita por Francisco “Chiquinho” Feitosa, ex-cunhado de Gilmar Mendes, que na época recebia R$ 500 mil por mês do próprio Vorcaro. 

Gilmar Mendes esclareceu que o encontro ocorreu “em ambiente institucional”, amparado pelo Estatuto da Advocacia, e afirmou categoricamente que votou contra os interesses do Banco Master nos processos citados. No caso da Destilaria Alcídia S/A, por exemplo, o voto do ministro foi vencido, e a usina saiu vitoriosa com os votos de Edson Fachin, Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli.

A suspeita sobre o voto de Toffoli

Um segundo capítulo dessa apuração, divulgado pela revista Piauí a partir de um relatório da PF com sigilo quebrado por decisão do ministro André Mendonça, levanta uma suspeita ainda mais grave: a de que Vorcaro teria atuado para influenciar diretamente o voto do ministro Dias Toffoli em outro processo sobre precatórios de uma destilaria do setor. 

As mensagens mostram um operador do Banco Master perguntando a Vorcaro se “vamos nos movimentar”, ao que o banqueiro responde estar “tratando” do assunto. Dias depois, o mesmo operador avisa que o resultado foi favorável, e Vorcaro reage apenas com um emoji de positivo. 

A própria Polícia Federal pondera que os elementos reunidos até aqui “ainda não são suficientes para conclusões definitivas” e que o caso “demanda aprofundamento analítico”. O gabinete de Toffoli nega qualquer mudança de posição, afirmando que o ministro manteve o mesmo voto tanto no plenário virtual quanto no julgamento presencial.

Por que isso importa para quem tem precatórios a receber

Casos como esse escancaram um problema estrutural do mercado de precatórios: grandes players, com poder financeiro e articulação política, tentam blindar seus próprios interesses dentro do Judiciário, enquanto o credor comum, pessoa física ou pequena empresa, segue na fila, sem intimidade nenhuma com os corredores do STF. 

Para quem já convive com a demora e a incerteza de receber um precatório ou uma RPV pelos trâmites normais, episódios assim reforçam por que tantos credores optam pela cessão de direitos: transformar um crédito sujeito a anos de disputa judicial, e a esse tipo de intermediação obscura entre grandes players, em dinheiro na conta em poucos dias. 

Compartilhe:

NOTÍCIAS