Foto: Andressa Anholete/STF
Ministro do STF diz que recebeu o ex-banqueiro “uma única vez”, em março de 2025, quase um ano antes de assumir a relatoria do processo que envolve créditos de precatórios negociados pelo Master
Um encontro discreto, ocorrido antes de qualquer investigação formal contra o Banco Master, virou o centro de uma polêmica que mistura precatórios, mercado financeiro e Supremo Tribunal Federal. O ministro André Mendonça divulgou nesta quarta-feira (2) uma nota confirmando que se reuniu com Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, em março de 2025, para tratar de uma ação sobre precatórios que hoje está sob sua relatoria.
A revelação partiu do site ICL Notícias, que teve acesso a mensagens trocadas entre Vorcaro e seu advogado, Ciro Rocha Soares, extraídas do celular do banqueiro apreendido pela Polícia Federal durante a Operação Compliance Zero. O caso foi reportado com detalhes pelo g1, que ouviu os dois lados envolvidos.
Por que essa polêmica interessa a quem acompanha precatórios
Para quem lê o rpvnoticias, o pano de fundo do caso é familiar: precatórios são dívidas que a União, estados ou municípios precisam pagar depois de uma decisão judicial da qual não cabe mais recurso. Como o pagamento segue ordem cronológica e depende de inclusão no Orçamento, o que pode levar anos, esses créditos viraram um ativo negociado no mercado financeiro, comprado com desconto por quem aposta em receber o valor cheio no futuro.
Foi exatamente nesse mercado que o Banco Master atuou. Segundo apurou o g1, o banco adquiriu, em 2023, o direito de receber precatórios milionários por meio de fundos de investimento que lhe cederam os créditos, fundos hoje administrados por empresas sob investigação na Operação Compliance Zero. A suspeita da Polícia Federal é de que parte desses precatórios foi expedida pela Justiça antes do fim definitivo dos processos, quando a União ainda poderia recorrer e contestar o valor da dívida, o que tornaria a operação irregular.
O que a reunião discutiu
De acordo com a nota do gabinete de Mendonça, o encontro com Vorcaro tratou da Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, ação em julgamento no STF sobre os créditos de precatórios de interesse do Master. Na data da reunião, o processo estava com pedido de vista de outro ministro, ou seja, ainda não tinha relator definido para a fase em que Mendonça atuaria mais tarde.
O ministro afirma ter recebido Vorcaro “uma única vez”, por iniciativa do próprio empresário, e diz ter apenas ouvido o que ele tinha a dizer. No mesmo mês, também recebeu o advogado do banqueiro e ainda guarda, segundo a nota, os memoriais escritos entregues na ocasião.
Um ponto que a nota faz questão de destacar: Mendonça só assumiu a relatoria do caso Master no STF em fevereiro de 2026, quase um ano depois do encontro. E, segundo o próprio gabinete, a decisão do ministro no processo acabou sendo contrária à posição defendida pelo empresário.
As mensagens que motivaram a reportagem
As trocas de mensagem reveladas mostram o advogado Ciro Rocha Soares articulando o encontro com insistência. Em fevereiro de 2025, ele escreveu a Vorcaro dizendo que precisava agendar a conversa o quanto antes, e reforçou no dia seguinte a importância de o banqueiro comparecer junto com ele. Vorcaro respondeu de forma direta, topando marcar o encontro.
Depois da reunião, o advogado ainda enviou uma foto ao lado do ministro e comentou, em tom informal, ter levado Mendonça a uma alfaiataria no Rio de Janeiro. Esses detalhes, mais do que o conteúdo jurídico da conversa, foram o que deu repercussão ao caso.
O que dizem os envolvidos
O advogado Ciro Soares se manifestou publicamente defendendo a legalidade do encontro. Ele argumenta que buscar conversas com magistrados é prática comum na advocacia e reforça que, no momento da conversa, Vorcaro não era investigado e Mendonça não tinha qualquer vínculo de relatoria com o processo. Para o advogado, não existe conexão a ser feita entre o encontro de 2025 e a relatoria assumida quase um ano depois.
Mendonça, por sua vez, evitou comentar o conteúdo das mensagens trocadas entre terceiros, afirmando que sua atuação, pública e privada, segue princípios de legalidade e impessoalidade.
O que ainda não se sabe
A reportagem não indica, até o momento, que a reunião tenha influenciado o mérito da decisão do ministro, que, segundo a própria nota do gabinete, foi desfavorável aos interesses do Master no processo. O caso também menciona que Vorcaro teria buscado contato semelhante com outros integrantes do STF, o que sugere uma estratégia mais ampla de aproximação, não restrita a um único ministro.
O desdobramento do caso segue em aberto, acompanhando o andamento das investigações da Operação Compliance Zero sobre a origem dos precatórios negociados pelos fundos ligados ao Master.
Fonte: g1, com reportagem de Márcio Falcão e Reynaldo Turollo Jr. (TV Globo, GloboNews e g1, Brasília).







